Em resposta ao desafio das perguntas da Paty no blog da Ana Fagundes – Colorida Vida: Eu, um ano, uma ilha deserta
Eu conhecia essa frase “Ninguém é uma ilha”, uma citação de alguém famoso que eu nunca lembrava quem era. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando recebi aquela carta. Eu nunca tinha ganhado nada por sorteio e qual não foi a minha surpresa: um ano numa ilha paradisíaca, pra lá das bandas do Taiti, com aquela água cristalina e chalés suspensos que deixam você ver o fundo do mar… E eu só tinha preenchido um cartãozinho singelo, da caixa de sabão em pó – vai saber o que sabão em pó tem a ver com ilha deserta! – por pressão da minha mãe.
Confirmado o prêmio (não era trote), desembarco eu de mala e cuia na dita cuja, com um rapaz havaiano (não, taitiano) lindo pronto pra colocar um colar de flores no meu pescoço. Eu tinha colocado um sarongue na mala?, tentei lembrar. Sim, eu tinha. Não, espera. Não foi bem assim.
Contatada a empresa de turismo que promovia o tal sorteio, fui informada de que consistia o pacote. Respirei aliviada quando vi que não era nenhum Big Brother pra náufragos, nem nenhuma competição tipo Survival. Porém, eu não teria um chalé suspenso com vista para os peixinhos no fundo do mar. Nem teria um havaiano (ops taitiano) lindo me esperando com um colar de flores pra colocar no meu pescoço. Eu teria uma certa infra-estrutura. Algumas limitações. E alguns privilégios.
Com o espírito aventureiro que me caracteriza, embora minhas viagens sejam sempre virtuais, pois eu não suporto ter que dividir banheiro, lugares com insetos voadores, nem falta de ar-condicionado, respirei fundo e embarquei. Era o meu momento Robinson Crusoé. A experiência também podia me ensinar alguns truquezinhos básicos, caso algum dia eu fosse vítima de algum acidente aéreo – tem que ser aéreo, pois eu não viajo de barco em mar aberto nem inconsciente – e desse a sorte de cair viva no mar, ficar viva no mar e chegar viva em terra.
E lá fui eu. Bom. Cheguei no aeroporto e tinha uma galera me esperando com uma plaquinha com o meu nome. Monica Salon. Eles sempre erram meu nome, mas tudo bem. E o comitê de recepção, muito simpático e solícito, foi me explicando quais seriam as regras enquanto eu esperava ansiosamente o desembarque das minhas cinco malas. Vou logo adiantar que as cinco malas foram re-embarcadas e despachadas no vôo seguinte. Vocês já vão saber porquê.
Eis as regras do jogo:
Eu teria água à vontade. Okay. E frutas nativas. Ótimo. Eu estava com saudade de comer banana de verdade depois de ter passado um ano na Inglaterra, onde banana tem gosto de… hum… nada. Caraca, mas eu tinha que escolher um único tipo de comida salgada e doce, crua ou cozida, pra comer todo dia. Esse não era o maior desafio, afinal, eu tinha passado anos comendo arroz com frango de almoço todo dia no trabalho. Ninguém mais aguentava ver o meu frango com arroz, mas eu comia numa nice. Comida pra mim é que nem gasolina. Um saco ter que parar no posto pra abastecer. Escolhi peito de frango assado (se der pra rolar um arrozinho, beleza) e chocolate. Chocólatra assumida, não dava pra abrir mão do vício…
Pra beber me dariam água ou a opção de subir no coqueiro que nem aqueles garotos no nordeste pra catar meu coco. Impossível, o tamanho da minha bunda por si só me ancora no chão. O boi que sou pesa demais para ser içado pela força dos meus próprios braços. Não, nem todo o kung fu do mundo ia me dar preparo físico pra trepar num coqueiro. Melhor guardar as forças e trepar numa rede. Sorry. Subir numa rede. I mean, deitar numa rede… whatever.
Mas eu podia escolher outra coisa pra beber o ano inteiro e escolhi aquilo que bebo o ano inteiro de qualquer maneira, estando em ilha deserta ou não: coca light. Ou melhor, uff, quase me dei mal: coca zero. Vai saber! São quase idênticas, mas eu prefiro a zero. Anotou direito? Zero. Não é Light não. Zero.
Ok. Manda ver. Quais são as outras condições? Por enquanto tá tranquilo.
Só posso levar um livro? What do you mean? Só um? Cacilda! Não vai dar. Eu tenho livros dos quais não posso me separar fisicamente, senão o coração pára, enfarta. Só um? Tem certeza? Veja bem, a gente faz um acordo. Eu abro mão da coca zero. Passo um ano encarando só água. Mas eu quero pelo menos cinco livros. Não? Sem acordo? Damn! Okay. Hummm… Poesias Selecionadas de Pablo Neruda. Não! O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Vai que a minha mediunidade destrambelha…
Aí me mandaram escolher um único filme. Olha, eu amo cinema, teria sido uma dureza sem tamanho escolher. Mas confesso que pensei em matar dois coelhos com uma cajadada só. Na verdade, matar um coelho só. O filme não importava. Mas o Dan Craig saindo da água no Cassino Royale dá pra assistir o ano inteiro, várias vezes por dia. E é a distração perfeita quando se está há um ano sozinha – ou não – em algum lugar.
Bom, achei que já tava de bom tamanho, né? As restrições eram um tanto duras, mas dava pra levar. Aí a coisa começou a melhorar. Me deram até um laptop. Nossa, que luxo! Oba. Mas veio com um único programa instalado. Só um. Tá de sacanagem? Você me dão um Vaio de última geração e só posso usar um mísero programa? Esse prêmio tá me saindo melhor do que a encomenda. Posso ficar com o Vaio se eu sobreviver esse ano nessa ilha sem qualquer um dos meus cremes, perfumes e shampoos? Come on! It’s only fair enough! Beleza. Eu fico com o Vaio (propaganda pra Sony. Vou ter que fazer um comercial, tirar fotos, coisa do gênero. Mas mesmo que eu tenha que posar nua – bah, só se for pra me apedrejarem! Ninguém é louco de pedir isso – eu poso. Qualquer coisa por um Vaio). Tá, instala o Word. Tem outra opção? Sou escritora! Vivo sem qualquer coisa, mas não sem computador ou papel pra escrever. Tá, vivo sem email. E sem Outlook. Damn it… Na boa. Word tá bom.
Ah, vou poder navegar na web? Mas aí a moça lá me disse o seguinte (believe it or not!):
Você poderá acessar a internet, mas este acesso é limitado a um único site, o ano todo. (Se você escolher o Google, por exemplo, não poderá navegar para os links dos resultados da sua busca, que estão fora do Google). Também não pode ser seu webmail, Meebo e afins ou sites de notícias (o que elimina os portais). Fora isso, não há restrição nenhuma ao tipo de site, inclusive os que permitem comunicação de outros tipos. A qual site você quer ter acesso por um ano e por que?
Caraca, isso não é prêmio! Tão querendo transformar minha vida num inferno durante um ano, pra ver se eu sobrevivo! Quem está por trás disso? CIA? MI6? Mossad?
Pensar, professor, pensar… Acho que eu ia querer o WordPress. Eu ia poder atualizar meu blog e receber mensagens em forma de posts… Posso escolher essa depois? Preciso pensar melhor.
Tá. Música. Não, colega. Não dá pra ouvir uma única música o ano inteiro. Eu tenho um problema sabe, um defeito de fabricação. Música gruda no meu cérebro. Gruda. Eu ouço uma música, um ring tone de celular, uma sinfonia uma única vez e a dita cuja fica tocando no meu cérebro sem parar por três semanas. Se eu ouvir a mesma música todos os dias um ano inteiro, vou passar as minhas próximas três encarnações com ela tocando na minha cabeça. É de arrancar os pentelhos com pinça. Não dá. Mas um CD… quem sabe. Pra ouvir de vez em quando. Deixa ver. Levo o Astronaut do Duran Duran. É animado. Dá pra ouvir uma vez por mês. Se grudar, é tolerável.
Escuta. Como assim escolher 1 pessoa pra ligar? Vocês não tem família, cacete? Não tem amigos? Como assim? Se escolho alguém da família, causo um problema quando eu voltar. Se escolho 1 amigo, fico pensando na falta que os outros fazem. Posso escolher o Dan Craig? Ele fala comigo por 10 minutos? Ok, then. Dan Craig. Por quê? Ora, simples. De que outro jeito eu poderia falar 10 minutos com o Daniel Craig?
Oba. Televisão. Eu, a vidiota que sou, viciada em tv, vou ter televisão! Maneiro. Uma vez por semana só? Okay. National Geographic. Não!!! Bricadeirinha… Não! Eu tô de brincadeira. Sério. Não, é brincadeira. Ô cara, dá um tempo. Não sabe brincar? Okay. Deixa eu ver… hummm… Greys Anatomy, Desperate Housewives, Supernatural… Supernatural. Também mata 2 coelhos com uma cajadada só. Distrai e tem 2 gatos pra revezar com o Dan Craig. Mas não pode ser reprise. Todos os episódios têm que ser inéditos.
No meu aniversário quero receber uma carta de qualquer pessoa me contando que o meu irmão Alexandre foi chamado para trabalhar na Eletrobrás e o trabalho é maneiro. Gente, vocês não tem noção da felicidade quando isso acontecer!
Putz, disseram que eu podia levar um bicho de estimação. Ai ai ai… plantas não sobrevivem nas minhas mãos, como vou cuidar de um bichinho? Além do que, o pobre do bichinho ia surtar com a minha falação. Pelo menos, uma bola de vôlei não fica entediada, nem avança em cima de você quando não suporta mais o som da sua voz. Não, não posso torturar uma criatura de Deus obrigando ela a passar um ano comigo numa ilha deserta. Nem confinar o bichinho… Eu fico com a bola de vôlei.
Eu já estava pensando em desistir. Todas essas condições. Parece aqueles testes medonhos do America’s Next Top Model. E aí fiquei pensando. Vou? Não vou? Ainda posso desistir. Ainda tá em tempo. Ainda dá pra voltar atrás. O que eu vou perder em um ano? Do que eu vou realmente sentir muita falta. Da minha família. Ela é doida, como todas as famílias. Tem de tudo, que nem todas as famílias. Mas é o que me faz mais falta. Ah, anota aí: têm amigas minhas que são irmãs, falou? Conta como família.
Mas resolvi encarar. Valia a pena. Como eu disse: depois dessa eu posso ficar perdida em floresta, despencar de avião, qualquer coisa. Se eu não ficar de saco cheio de mim mesma e ficar me mandando calar a minha própria boca, vai ser uma experiência muito interessante. Quem sabe ela não se torna o meu primeiro best seller?
De lambuja me mandaram levar três coisas que não tivessem sido proibidas acima nem fosse um meio de sair da ilha. Beleza. Levo desodorante, não dá pra ficar fedendo um ano inteiro; escova de dente com pasta (tem que ser o kit, pelo amor de Deus!); também não dá pra ficar com bafo de tigre louco um ano inteiro, e shampoo com condicionador, nem dá pra ficar com cara de maluca (quem conhece o meu cabelo sabe do que estou falando!) um ano inteiro. Ai, espero não me arrepender das escolhas… posso ter mais um tempinho pra pensar? Ô cara, isso é que nem o gênio da lâmpada. Quem nesse mundo consegue fazer três pedidos e acertar de cara, sem pensar? Não!!!! Já sei. Levo: i) tylenol 500; ii) sumax 100; iii) tylex 30. Os três são pra enxaqueca. Em quantidade pra um ano sem medo de acabar, ok? Dá pra suportar futum de suvaco, bafo de tigre louco e cabelo desgrenhado. Mas enxaqueca eu não encaro.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Adorei!!!! O mais original dos que eu já vi!!! Adorei sua narrativa, Moniquinha!!!
Bjs!!
Amiga,
a gente pega um barquinho e te rouba de la! Com Vaio e Daniel Craig junto. Ou inventa um esquema pirata pra contrabandear o que vc precisa nessa ilha.
Detalhe – vc esqueceu o filtro solar.
bjo, feliz ano novo,
Beta, Cacau e Ju
Monica, vc é uma figura!!! Imaginei vc na minha frente contando isso e eu morrendo de rir.
E essa coisa da música que nao sai da mente? Sempre me lembro de vc…
Estou com saudades!!
Beijos,
Paulinha
Moniqueta,
fuçando na web achei um post seu num blog sobre gente que nao lidera, vc me coloca no meio do post, muito figura vc… rsrs
Eu quero falar com vc pelo msn, po, me anexa la beta-simoes@uol.com.br
E qual seu email no globo?
e seu tel ai?
bj
Beta