A decisão
Não, não resolvi estudar no UK ontem. Na verdade, tomei a decisão de me tornar escritora profissional em janeiro de 2007 (escrevo desde os 12 anos). Como é a minha cara, fiz um pequeno “planejamento estratégico” de dois anos para viabilizar esse sonho “de vida inteira”. Um dos ítens era “formação” e nele constava o investimento em algum curso, no Brasil ou no exterior.
Entre querer fazer e conseguir fazer um curso no exterior vai uma grande distância. Mil questões, mas as duas mais básicas eram: o curso que eu quero existe? Como vou fazer para pagar?

E o curso?
Gente, não acho que você precise fazer curso para ser escritor/a. Acho que um curso pode te dar as ferramentas, aprimorar a técnica, e isso é muito útil. Mas isso, vou abordar em outro post, mais tarde.
No Brasil, existem muitos (e bons) workshops para quem quer ser escritor. Eu fiz um, por exemplo, na Casa da Gávea (RJ), com a Prof Virgínia Cavalcante e amei. Esse curso me possibilitou algumas coisas muito significativas, mas isso é outra história. Encontrei um de “Formação do Escritor”, em nível de graduação, na PUC-RJ. Vi também um curso de pós em “literatura infanto-juvenil”, na Estácio, mas não era para escrever, era sobre literatura.
Eu queria estudar alguma coisa que tivesse a ver com escrever ficção, romances, fantasia. E sei, por experiência de trabalho, que o Reino Unido oferece cursos de qualide bastante específicos. Ou seja, você encontra o exatamente o curso que está procurando, mesmo que pareça impossível. Fiz então uma busca por cursos em “Creative Writing” em quase todas as universidades britânicas (Creative Writing Courses in the UK, em inglês).
Quando localizei o curso da University of Winchester, que tinha um módulo de “Writing Fantasy”, vi que não precisava mais procurar. Era exatamente o que eu queria. Além desse módulo, o curso inclui vários módulos interessantes, inclusive teóricos. Vou poder escolher entre diversas opções de temas para aprofundar e estou inclinada a fazer, além de Writing Fantasy (Escrevendo Fantasia): Webwriting & Hyperfiction e Writing Novels (Escrevendo Romances). São muitas as alternativas, como: Creative Non-Fiction (Não-Ficção Criativa), Writing Song Lyrics (Escrevendo Letras de Música), Scriptwriting (Escrevendo Roteiros), Playwriting (Escrevendo Peças Teatrais), dentre outras. O curso também tem um elemento que me interessa muito: discutir o trabalho de outros escritores e desenvolver a capacidade crítica.
Como fazer para pagar?
Um mestrado em Creative Writing pode variar entre £7,000 e £11,000 e o meu curso custa £7,800, mas o preço regula com o da maioria das universidades. Nota: a libra custa +/- R$4,00. Além deste, tem as despesas normais de quem vai morar um ano fora (alimentação, acomodação, transporte) e há que se reservar algo em torno de £600/£700 por mês (fora de Londres) para isso, com o orçamento bem apertadinho. Em Londres é mais caro, em torno de £900 por mês. Em geral, os sites da universidade dão uma dimensão de quanto custará a manutenção do estudante no período – varia de cidade para cidade.
Uma das formas de arcar com esse custo e tentar bolsas de estudo. Essa é a opção que vêm em primeiro lugar, preferência nacional! Não é fácil conseguir bolsa nessa área, mas também não é impossível. No Education UK, o portal do British Council sobre educação no Reino Unido, há uma seção dedicada a bolsas institucionais e de algumas universidades, mas se você achou o curso que te interessa, vale olhar site da universidade e checar o que eles oferecem. No meu caso, não teve jeito: eu não me enquadrava em nenhum esquema. Conto com a ajuda de amigos extraordinariamente generosos.

Quanto ao custo de vida, confesso que fugi de Londres. Londres é caro para estudantes como eu, que estou indo com o dinheiro contadinho. O fato de Winchester ser uma cidade pequena foi perfeito: não vou ter grandes gastos com transporte, a acomodação da universidade é bem legal, em conta e dentro do campus. Além disso, a cidade fica a mais ou menos 1h30m (no máximo) de Londres. Ainda não posso atestar o quão “agitada” pode ser a noite em Winchester, mas essa, definitivamente, não é a minha prioridade…
O processo de candidatura
Olha, o processo de candidatura a qualquer coisa nessa vida – seja a um emprego, uma bolsa de estudos, uma universidade no exterior – é um “job in itself” (quase um trabalho em tempo integral), com disse o meu diretor. É uma trabalheira, não se enganem. Lógico que vale a pena! Mas é preciso dedicar tempo e atenção ao processo.
Diferente das universidades brasileiras, as instituições britânicas avaliam seu histórico escolar (em geral da graduação, caso esteja se candidatando a pós ou mestrado), seu CR (notas de cada matéria cursada e média final), sua experiência profissional e, em especial, seu “personnal statement” (declaração pessoal), além de duas cartas de referência (em geral, duas acadêmicas ou uma acadêmica e uma profissional).
É preciso reunir toda a documentação dentro do prazo da universidade e cada uma tem um. Se estiver concorrendo a bolsa, atenção para os prazos específicos de cada esquema.
Além de um CR alto (pelo menos média 8.0), de ter um inglês fluente (IELTS, em média, 6.5, mas no meu caso, como o curso é de escrita, a média solicitada era 7.0), e ter uma graduação (no caso de estar se candidatando a pós ou mestrado) conceituada, contam muito. Mas o Personal Statement é fundamental.
É preciso demonstrar sua objetividade (não divague!), exemplificar o quanto você tem interesse naquele tema através das tuas atividades, cursos paralalos, estudos, mostrar o seu compromisso com o curso e com sua carreira, seus planos para o futuro, o quanto o curso vai te acrescentar e ajudar a crescer. Objetividade é o ponto forte. Exemplifique, comprove suas intenções através das tuas ações. Isso demonstra maturidade, compromisso e foco.
Em algumas situações, há flexibilidade. No meu caso, por exemplo, como estou afastada da universidade desde 92, a universidade aceitou que eu apresentasse duas cartas de referência profissionais. Tive professores que já fizeram cartas para mim no passado, quando por exemplo, me candidatei à London School of Economics e a carta do Prof Grieco, da PUC, com certeza foi fundamental. Desta vez, porém, não tive essa possibilidade de solicitar outra a ele, mas a universidade acomodou minha necessidade.
Pedir demissão (ou não)? Que medo!
Quem, hoje em dia, pede demissão com toda a tranquilidade? Poucos, garanto. O fantasma do desemprego é um fato. A gente fica com medo, afinal, eu já tenho algumas conquistas: moro sozinha, pago minhas contas, sou independente…
E o British Council, graças ao meu diretor, generosamente me ofereceu a possibilidade de me candidatar uma “licença não-remunerada”. O fato de estudar no UK me dará a experiência real daquilo que eu promovo no meu dia-a-dia e isso foi crucial para que a licença fosse aceita. Se tudo der certo, volto ao British Council em outubro do ano que vem e, com certeza, estarei ainda melhor equipada para ajudar todos os estudantes a não só escolher o UK, mas a saber como é a experiência lá.
Mas nada é garantido nessa vida. Essa decisão traz um risco embutido. Tudo pode acontecer na volta e, também, não será um ano “miraculoso” que vai mudar a minha vida radicalmente. Vou aprender muito, com certeza, porém, quando voltar, eu vou ter que trabalhar para me sustentar (mesmo que não seja em literatura e, num primeiro momento, é o que vai acontecer), contratos para publicação não vão cair do céu e muito menos um emprego que me gere uma renda astronômica! A volta será ralação, como sempre foi.

Mas de fato, tem gente que volta com um mestrado em finanças, na área de negócios, e em outras áreas, que voltam e conseguem posições muito melhores do que tinham antes. Isso também é fato comprovado, pois isso aconteceu com muitos bolsistas Chevening (saiba mais sobre essa bolsa). É inegável que um curso no exterior agrega muito à experiência pessoal e profissional, afinal, lá você troca com gente do mundo inteiro e o networking que se tem a chance de fazer vale ouro!
Muita gente acha que o ideal é ficar por lá. Eu, sinceramente, não tenho esse desejo. Quero estudar, aproveitar ao máximo, mas retornar e aplicar o que aprendi escrevendo aqui do Brasil mesmo, na minha língua natal. E, de preferência do Rio, apesar de todos os problemas do país e da cidade.
Fiquei super feliz que você conseguiu o career break! Isso sim é um verdadeiro milagre, né?
Moniquita! Você sabe que tudo relacionado a Cinema me interesa. Acho que estou tão feliz quanto você com a sua viagem.
Olá Mônica!
Que maravilha tudo que está acontecendo em sua vida. Parabéns pela oportunidade, que está em suas mãos, de aprender muito e poder contribuir para o aprendizado dos seus leitores. Sou sua colega no BC e desejo-lhe muita sorte e felicidade em seus estudos.
Um grande abraço,
Marília Matos
Moniquinha, descobri apenas hoje que você conseguiu o que tanto queria. Fico muito feliz! Você merece. Tenho certeza que ainda leremos muitos livros seus para nossas crianças da evangelização da Rocinha. Parabéns! mil beijos, Simone