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Abençoado 15 de fevereiro, que trouxe ao mundo, através de dois seres abençoados, papai e Sônia, o meu irmão Marcelo. Um irmão com quem tenho – tenho, no presente, porque Marcelo é presença permanente – muitas afinidades.  Nós compartilhamos, sobretudo, o gosto pela leitura.

Marcelo sempre leu avidamente, como todo mundo sabe. Renato também. Alexandre também é bom leitor. Bênção! Essa afinidade fazia com que ficássemos horas falando sobre um determinado livro ou autor. E me ajudou muito na minha escrita.

Ainda bem jovem,  adolescente, o Marcelinho me apresentou a um dos seus livros preferidos:  Elric of Melniboné, de Michael Moorcock. Me lembro que, na época, eu estava obcecada por algum outro escritor – acho que Rimbaud – e, a princípio, resisti. Mas ele falou com tanto entusiasmo e insistiu tanto que eu ia gostar – ele sabia exatamente do que eu gostava – que cedi sem que ele precisasse fazer muito esforço.  Resultado: fiquei obcecada por Michael Moorcock.

Li toda a saga de Elric, esse personagem fascinante e controverso, um anti-herói escravizado a uma espada “do mal”, Stormbringer, que lhe garante a sobrevivência. Moorcock, um premiado autor britânico de fantasia, também desenvolveu o conceito de “multiverso” que influencia até hoje a minha escrita. Durante meu mestrado, fiz um trabalho sobre construção de mundos no gênero fantasia e abordei a concepção de Moorcock (assim como a de Tolkien e Philip Pullman).  Antes disso, na primeira vez que fui ao UK, entrei em todos os brechós e sebos para encontrar os livros de bolso de Moorcock. E comprava dois: um pra mim, outro pro Marcelo. Pouco depois, lançaram novas edições dos livros, desta vez em formato normal, e comprei um novo set: um pra mim, um pra ele. Eu adorava debater os personagens e as situações com o Marcelo.

Na mesma época que me apresentou a Moorcock, o Marcelo também falou sobre o Tolkien – o Hobbit, o Senhor dos Anéis e o Silmarillion. Só que eu tinha sido abduzida pelo Elric e, apesar do interesse, acabei adiando a leitura. O Marcelo é um expert em Tolkien. Quando saiu a trilogia de filmes, me tornei obcecada por Tolkien. Com paciência de quem sabe tudo e mais um pouco, o Marcelo me explicava as sagas de todos os personagens, até os mais obscuros. O conhecimento dele também tinha a ver com o hábito de jogar Dungeons and Dragons (RPG) com os amigos, hábito que esgotou as opções oferecidas em livros e fez com que ele e seus amigos criassem estórias alternativas. Ainda tenho pena de não ter sido dessa geração, mas, por outro lado, agradeço – eu teria passado tempo demais jogando… Enquanto eu lia os três livros, desta vez com atenção redobrada, o Marcelo me esclarecia as dúvidas durante nossas caminhadas.  Amo Tolkien e não me canso de ler. Volta e meia consulto o The Complete Tokien Companion , que, desconfio, o Marcelo sabia de cor.

A saga Guerra nas Estrelas é outra paixão em comum. O Marcelo sabia os diálogos das cenas e eu, com minha memória visual, me deleitava com as citações (“I find your lack of faith disturbing…” Darth Vader) . Me lembro quando ele compartilhou comigo um jogo de computador que simulava o voo de um X-Wing. Nossa! Eu ficava olhando para aquela telinha como se fosse o hiperespaço, no breu do quarto, tentando impedir que meu caça não rodopiasse em torno de si mesmo e perdesse a direção do alvo. Não era fácil controlar e eu sempre rodopiava e me perdia. Nunca fui boa no jogo, mas eu me sentia dentro do universo do Luke Skywalker, a grande paixão da minha infância.

Mas essa afinidade não se limita a livros e filmes – ele me apresentou aos animes japoneses Akira, Ghost in the Machine, Ninja Scroll, que adoro). O Marcelo tinha uma paciência tibetana quando se tratava de ouvir as sagas que eu criava. Uma vez, ele foi daqui a Nogueira ouvindo uma estória minha, com todas as suas reviravoltas e personagens, debatendo comigo a trama e tirando dúvidas. Tinha sempre boas observações e fazia perguntas pertinentes, que me levavam a pensar ou repensar as situações da trama. Quando leu a última versão de A Marca (que ainda estou reescrevendo), fez duas observações cruciais e que me servem até hoje.

Uma se referia ao personagem principal que, da forma como estava estruturado, acabava ficando mais fraco do que um dos personagens secundários. Um erro fundamental. O Marcelo chamou minha atenção para o fato de que o personagem secundário era muito mais interessante e carismático do que o protagonista. Isso pode acontecer e, não raro, alguns autores optam por transformar esse personagem secundário em protagonista e escrever a estória a partir do ponto de vista dele/a. Mas não era o meu caso. Eu precisava fazer com que meu protagonista ficasse mais ativo – até então, como o Marcelo apontara, ele estava reativo – e incisivo. Isso fez toda a diferença quando repensei a estória para a nova versão.

A outra observação que ele fez também foi importantíssima. Meu irmão percebeu que eu tinha sido muito mais generosa nas descrições dos personagens masculinos do que dos femininos. No caso desta estória, que seria lida majoritariamente (creio eu) por jovens adultos ou adolescentes (do sexo masculino), era importante que eu também oferecesse descrições mais interessantes das personagens femininas. Parece um detalhe, mas não é. Isso demonstra um entendimento das expectativas do seu público-alvo. Eu podia até subverter essa expectativa ou desafiá-la, mas precisava estar consciente dela e não estava – foi o Marcelo quem chamou minha atenção.

Minha gratidão a esse irmão é imensa, pela amizade, generosidade, companheirismo e inteligência. Sobretudo, por compartilhar comigo esses elementos tão cruciais na minha vida: leitura e escrita. Valeu, maninho! Penso em seus conselhos e observações quando escrevo. Te amo. Demorou.

Poema para o Marcelo

Lindo poema que papai, Amauri, escreveu para o Marcelinho no dia do aniversário dele.  

Não percam a oportunidade de participar da nova edição da Oficina de Criação Literária (Elementos básicos para escrever ficção), de Virgínia Cavalcanti, em março, na Casa da Gávea.

Fiz esse curso em 2004 e valeu muito à pena – saiba por que no post que coloquei no meu blog  “Palavras no Papel”.

Monica e o esquilo

Enquanto me preparo para voltar para o Brasil – logo, logo – faço longas caminhadas no Hyde Park. As caminhadas ajudam de várias formas: lidar com a tristeza, aliviar a ansiedade, fazer o sangue circular melhor na cabeça, resolver problemas das estórias que estou escrevendo, ou não pensar em nada.

Os esquilos estão sempre por lá. Volta e meia um deles cruza à minha frente, saltitanto à la Tico & Teco, carregando alguma coisa na boca ou avaliando o visitante – potencial fonte de guloseimas. Muito fofos.

Eis um deles:

Oi Moniquinha,

Te escrevo com cópia para o Marcelo. Será que o cep de “lá” é ∞-ͽ ?
Chorei muito antes de conseguir te escrever. Que bela idéia você teve ! Talvez possamos todos, cada um de nós, iniciar esse diálogo com nosso Marcelinho. Sinto tanta saudade…

Mas, aproveito para dar algumas notícias. Abro um parênteses: me dei conta de que o Thor não foi um presente meu para o Marcelo. Foi um presente dele para mim, com toda a sua sabedoria e generosidade. Hoje ele é meu grande companheiro. Saio com ele todo dia de manhã cedo e caminhamos juntos pelas ruas aqui em volta de casa. Locais que o Marcelinho conhece bem, onde brincou muito. De manhã, o Thor escolhe o trajeto. Ele gosta muito de ficar em frente ao alambrado do campinho de futebol e algumas vezes fica olhando absorto para o campo. Ficamos, a bem dizer. Na pracinha, sento sempre em um daqueles bancos da praça e o Thor senta a meu lado, quietinho. As lembranças são tantas… E posso acariciá-lo e aproveito algumas vezes para mandar recados ao Marcelo. Desculpe, filho, mas ainda choro muito de saudade. Curioso é que, na pracinha, me vêm à mente imagens de nossas caminhadas em Porto Alegre, nas idas e vindas para o Moinhos de Vento. Conversávamos muito.

À tardinha, aí pelas seis e meia/sete horas da noite vou com o Thor passear na praia da Barra. Estaciono o carro em frente ao Fratelli e caminhamos pelo calçadão até mais ou menos à altura da Olegário. Aí pegamos a areia e voltamos pela praia, próximo do mar que você curtia tanto. O Thor ainda tem medo das ondinhas que avançam pela praia e sai correndo, como se a água o estivesse perseguindo. Às vezes paramos para observar os pescadores, os surfistas, os “kitesurfistas”. Nessas horas me sinto muito perto de você, filho querido. Sábia decisão a sua de me ter dado o Thor para cuidar e me fazer companhia. Tomei isso como um compromisso com você. Nessas horas, te sinto muito perto de mim. Me lembro das nossas mãos entrelaçadas, ouvindo música clássica no quarto da televisão, ou conversando durante as madrugadas quando era difícil dormir.

A praia da Barra é muito diferente da praia de Santo André. Você alguma vez se tocou com isso? Santo André, na enseada Jacumã, é como uma prainha pequena, com um mar pequeno e próximo. A Barra é um areal imenso, com um marzão imenso e uma sensação de infinito. Hoje, nesse dia especial, vou ver se sua mãe vai comigo e com Thor. Ela ainda não se acostumou totalmente com ele.

Quando vamos pela calçada, é grande o número de pessoas que pára para fazer festa no Thor e eu me sinto aquele “fanfarrão” que você carinhosamente me chamava. Curto a admiração das pessoas pelo Thor, que realmente é pelo menos duas vezes o tamanho dos outros Golden que andam pela praia. Este mês ele faz dez meses. Você lembra quando ele chegou? Ainda estava frio no Rio.

Agora, veja só o olhar pensativo do Thor olhando a praia da Barra, onde com certeza você já surfou. O que será que ele está vendo? Será que ele vê mais do que eu? Com certeza !

No calçadão, tem um quiosque administrado por uma família, que sempre reserva um coco grande para o Thor.

De longe, ele já vai me puxando para lá e quando chega ele pula no balcão. Adora água de coco. Aí, sentamos um pouco e tomamos ambos nossa água.                                                      

Não sei que tipo de “Parabéns” podemos cantar hoje.
Eu e Sônia ficamos em casa, curtindo tristeza e lembranças.
Ainda não nos conformamos. Será que isso vai acontecer algum dia ? Dá inveja a segurança da Mônica em sua fé e torcemos para que um dia cheguemos lá.

Sinto que, de algum modo, comemoramos, eu e Sônia. Paradoxo estranho esse ! Outro dia, no quiosque da água de coco a D. Maria me perguntou quantos filhos eu tenho e respondi que tenho 5 filhos, quatro homens e uma moça (escritora!, fiz questão de ressaltar…). Terei sempre cinco filhos. E isso já é uma coisa para se comemorar.

Às vezes, Marcelinho, acho que você está aproveitando para conhecer aqueles cenários lindos do Senhor dos Anéis, ou batendo papo com o Tolkien. E isso me consola um pouco. Só um pouco…

Obrigado Moniquinha por ter criado essa oportunidade (coisa de escritora…). Aproveita para mandar beijos apertados para você, para o Marcelo, para os outros três, para a Sônia, para a Marcelinha, para a Liliane, para a Mirela e para todos os amigos de nosso Magoo.

Parabéns, Marcelinho, mesmo com muita saudade apertando meu coração.
Amauri

PS. Tentei acrescentar algumas fotos ao comentário, mas não consegui. Mando em separado, para ver se você pode incluí-las.

Carta ao Marcelinho 1

Marcelinho,

estou aqui em Londres pensando em você, irmãozinho. A gente não vai poder se falar usando aparelho de telefone, o celular, o Skype como eu faria hoje mas a gente vai se comunicar de qualquer maneira – para que servem o pensamento e as emoções? E pensei que, se eu escrever, talvez seja mais fácil te passar as idéias e imagens do que estou sentindo. Afinal, foi isso que escolhi fazer da minha vida, não foi?

Sinto uma saudade enorme, uma saudade que também é física e que não vai passar, o desejo de te ver e te abraçar e ouvir a sua voz. Mas aí eu me vejo te abraçando, sentindo teu corpo, ouvindo a sua voz. E vejo você sorrir e me chamar ‘Moniquinha’…. e você está comigo. Dessa forma, você sempre está comigo.

Meu primeiro impulso essa manhã foi pensar: Feliz aniversário, maninho! E, de repente pensei: como será isso pra você? Sim, a data é importante pra nós – esse vai sempre ser o seu dia. E eu vou sempre estar com você, como se te encontrasse para jantar ou cantássemos parabéns em família. Esse ano – de novo aliás, pois ano passado eu estava em Londres e você no Rio -, ao invés de falar pelo Skype ou telefone, a gente vai se comunicar de outra forma.

Bom, ok, vou chorar muito hoje e vou chorar muito ainda – isso não vai ter jeito. Mas não vou chorar desesperada. Vou ficar te ouvindo e pensando em você como faço todos os dias e vou assistir Lord of the Rings mais uma vez, é claro.

Aliás, semana passada uma moça muito simpática entrou num dos meus blogs perguntando sobre Fantastic Fiction, pois ela tinha acessado o meu post sobre ‘Construindo mundos de fantasia’. E o nome que ela usava era Mithrellas – depois ela explicou que era um personagem do Senhor dos Anéis. Lembrei na hora de você. Você certamente já identificou e sabe quem é e qual o papel dessa personagem nas estórias do Tolkien. Mas eu corri pro The Complete Tolkien Companion que herdei de você e lá estava Mithrellas… Esse companion é mesmo fantástico. Ainda não encontrei – ou melhor, não tive a chance de pedir – os outros livros do Tolkien que a gente não leu. Vou pedir na Amazon e te falo – ou te ‘penso’. Essa forma de comunicação ainda deve ser estranha pra você também, mas a gente se acostuma. O bom é que chega rápido – pensou, chegou – e vem completa, com som, imagem e emoção, melhor do que o melhor iPhone do planeta.

Falando em iPhone, fiquei ligada no iPad. Tenho o Kindle, você sabe, e acho que os dois têm funções diferentes, mas, como uma gadget addict, não tenho como não ficar com água na boca. E não posso nem pensar em comprar nada agora. O iPad vai ter que esperar – ai, ai, ai, preciso arrumar um emprego aqui rapidamente! Depois te conto sobre isso.

Você deve estar aí ocupado em se recuperar e pensar nos seus próximos projetos, então deixa eu te contar o que está acontecendo aqui:

O projeto do roteiro da adaptação (A Girl Made of Dust) caminha bem… creio eu. Depois de algumas reuniões com o meu parceiro de escrita, Steve, e com o nosso agente (meu ex-chefe) Julian e o produtor, Basil, acordamos os próximos passos: produzir um ‘treatment’, ou melhor, um ‘pitching document’ (que serve para ‘vender’ a idéa do filme a possíveis financiadores) e escrever uma nova versão do roteiro levando em consideração as sugestões da autora do livro e do produtor. Fizemos o treatment (pitching document) primeiro e mandamos logo, pois o Julian e o Basil precisavam dele para o Festival de Berlin, que começou na semana passada. Aliás, foi por isso que voltei para cá logo, pra poder trabalhar nesses documentos a tempo para o festival. Acho que o roteiro tem mesmo uma boa chance de ‘acontecer’. Ah, fiz também um site para o filme. Ficou legalzinho, mas ainda está em fase de revisão e não posso colocar no ar oficialmente ainda. Te mostro hoje. 

Depois fui para a casa do Steve, em Winchester, e trabalhamos durante um dia e meio – inteiros, sem parar, direto – reescrevendo o roteiro. Foi uma experiência sensacional. A gente ia modificando, repensando e reescrevendo as cenas ao passo que lia. Adorei o processo. No final, chegamos a uma versão melhor do que a que tínhamos antes. Além disso, incorporamos dois finais alternativos. Foi muito legal: o roteiro me faz rir, me faz chorar… é uma estória muito boa.

É mesmo: ‘Demorou’!

Pois é, maninho, quando estou envolvida nesses projetos sinto que tudo vai dar certo. Mas aí a realidade nua e crua bate na porta e o fato é que preciso de um emprego para poder ficar aqui até o final do meu visto. Não está sendo fácil. Apesar da acolhida calorosa e mais do que generosa dos meus ex-chefes na casa deles – eles têm sido o máximo –, preciso mesmo encontrar trabalho.

Você deve estar dizendo aí de cima: ‘Calma, Moniquinha, vai rolar, vai rolar…’ mas não sei não, estou insegura. Talvez role uma verba para desenvolvimento do roteiro, porém não posso contar com isso. Tenho que mandar zilhões de applications. Não tenho tido resposta e, às vezes, me sinto uma velha! (risos). É um emprego em si mesmo procurar emprego, não é?

Eu sei que não sou ‘uma velha’, mas tá f* com ph e dd de Toddy. Outro dia fui dar uma olhada nas lojas da Kings Road e ver se rolava um trabalho de vendedora. Bom, primeira coisa que notei foi que as vendedoras não tinham mais de 30 anos… ai ai ai… depois resolvi abstrair e seguir em frente. Sei lá, né, vai que rola? Peguei um formulário de candidatura a uma vaga numa loja e a moça foi super simpática. Outros peguei só os emails. E lá fui eu, checando vitrine por vitrine, procurando anúncios ‘precisa-se de…’. Mais adiante, entrei numa loja de roupas cujo anúncio na vitrine dizia ‘Precisa-se de staff. Pergunte dentro da loja’. Lá fui eu. O cara da loja fez uma cara tão surpresa, tão incrédula, que eu corei. Ele perguntou se eu estava mesmo querendo saber de emprego e se era para mim. Apatetada diante da reação dele, gaguejei “Pode ser que seja pra mim…”. Ele continuou com um sorriso na cara como se nem soubesse reagir diante de tamanho absurdo. No final, ele murmurou: “Traz o seu CV”.

Eu saí desconcertada.

Que babaca!, pensei, com raiva. Tudo bem que ele não fosse sequer considerar meu CV mas não precisava ter sido TÃO sincero. Por outro lado, admirei o fato dele ser uma pessoa tão espontânea que não conseguiu esconder a surpresa misturada com indignação. O sorriso dele era quase um como ousa?!

Caraca, tô tão velha assim?!!!! Claro que não vou voltar lá.

O que fiz? Entrei no primeiro cinema que vi pela frente e fui assistir um filme (A Single Man, do Tom Ford). E ficava repetindo pra mim mesma: sou uma escritora, sou uma escritora, sou uma escritora – pra não me deixar levar pela onda de deprê que já ia baixando. A raiva passou, a deprê também. Mas se você já está se achando meio velha(o) e solitária(o) A Single Man não é uma boa escolha. Vá ver quando estiver para cima, pois o filme é ótimo. Confesso que fiquei com uma certa inveja do Tom Ford ter conseguido escrever e dirigir um filme tão redondinho sem nunca ter feito ou escrito para cinema na vida. Acabei simpatizando com o Tom Ford… O filme é muito bem feito e o roteiro também.

*Suspiro*

É isso, maninho, sem mais novidades. No domingo que vem volto pro quarto onde eu morava antes, em Pimlico, mas não sei quanto tempo fico lá – vai depender de eu arrumar emprego ou não.

Espero que as coisas estejam caminhando bem por aí. Você já deve estar se sentindo mais fortalecido e deve estar cercado de gente legal.

Como eu disse, a saudade é imensa, maior e diferente do que quando eu estava aqui e você no Rio. Mas também sei que agora a sua jornada é de recuperação e de recomeço. A gente vai estar sempre perto um do outro, como sempre esteve.

Vou continuar te consultando sobre o Senhor dos Anéis – talvez isso te cause alguma sensação física no perispírito, como se alguém puxasse levemente a sua roupa pra chamar sua atenção. E sei que você vai pensar daí: ‘Ô Monica, vai olhar no Companion, p…! Mais fácil do que eu ficar tentando te falar por telepatia!’ É vero… Checar o Companion é mais fácil, mas sinto muita falta das tuas explicações e das nossas caminhadas. Não que a gente tenha deixado de caminhar. Talvez a gente esteja caminhando juntos aí no Plano Espiritual e eu só não esteja me lembrando quando acordo. Bom, de qualquer maneira, vou continuar te contando as coisas assim do jeito que é mais fácil pra mim.

Te amo, maninho, e parabéns, afinal, hoje é um dia especial pois você é especial.

Monica